Lideranças indígenas levam à Europa denúncia sobre lavagem de ouro e cobram responsabilidade internacional
Comitiva dos povos Mẽbêngôkre, Munduruku e Xipaya percorre França, Países Baixos e Bélgica em parceria com o Greenpeace
Uma comitiva formada por quatro lideranças indígenas de três povos da Amazônia brasileira percorreu diferentes centros políticos da Europa para denunciar os impactos do garimpo, expor as fragilidades que permitem a lavagem de ouro ilegal e cobrar maior responsabilidade dos países, empresas e instituições financeiras que integram a cadeia internacional do metal.
A delegação da turnê “O Verdadeiro Custo do Ouro” reuniu Alessandra Korap Munduruku, Cacique Megaron Txucarramãe, Beptuk Metuktire e Cacica Juma Xipaia, acompanhados pelo Greenpeace. A agenda passou pela França, pelos Países Baixos e pela Bélgica, com reuniões junto a autoridades, parlamentares, organizações internacionais, jornalistas, representantes da sociedade civil e lideranças indígenas de outros territórios.
A missão apresentou três reivindicações centrais: transparência e responsabilização em toda a cadeia global do ouro, incluindo a rastreabilidade, proteção efetiva dos territórios indígenas e apoio direto às iniciativas de proteção florestal conduzidas pelos próprios povos.
A mobilização alcançou espaços onde são formuladas políticas ambientais, regras de importação e mecanismos de diligência empresarial. Embora a extração aconteça na Amazônia, o ouro percorre uma cadeia que envolve compradores, instituições financeiras, refinarias, exportadores, indústrias e mercados consumidores em diferentes países.

As vozes da comitiva
A composição da delegação reuniu diferentes gerações e trajetórias políticas.
Alessandra Korap Munduruku, vencedora do Goldman Environmental Prize, é reconhecida por sua atuação contra o garimpo e outras atividades predatórias que ameaçam o território Munduruku, no Tapajós. Durante a missão, ela destacou os impactos da contaminação por mercúrio sobre rios, alimentação, mulheres e crianças indígenas.
Cacique Megaron Txucarramãe é uma das principais referências históricas da luta pelos direitos indígenas no Brasil. Sua trajetória inclui décadas de atuação pela demarcação das terras e pela proteção do território Mẽbêngôkre. Na Europa, ele tem defendido a identificação dos compradores e das empresas beneficiadas pelo ouro retirado ilegalmente dos territórios.
Beptuk Metuktire, membro da coordenação do Instituto Raoni, representa uma nova geração de lideranças Mẽbêngôkre. Sua participação relacionou a incidência internacional ao trabalho cotidiano das organizações indígenas na gestão territorial, na comunicação e no fortalecimento institucional.
Cacica Juma Xipaia, liderança da aldeia Kaarimã, na Terra Indígena Xipaya, e fundadora do Instituto Juma, atua na defesa territorial, na autonomia das comunidades e na ampliação da presença das mulheres nos espaços políticos.
França: articulação indígena e incidência política
A primeira etapa da missão ocorreu em Paris. No dia 7 de junho, a delegação se reuniu com representantes indígenas da Guiana Francesa: Tapinkili Anaïman, do povo Wayana, e Jason Paul, Alexandre Sommer-Schaechtelé e Clarisse Da Silva, do povo Kalina’a.
O encontro permitiu compartilhar experiências sobre mineração, contaminação dos rios e defesa dos direitos territoriais. A participação das lideranças da Guiana também reforçou que a França integra a Amazônia por meio de seu território ultramarino e possui responsabilidades diretas sobre a região.
Na mesma data, a comitiva participou da mesa-redonda “Decolonialidade e justiça ambiental — Povos indígenas: é a terra se defendendo!”, organizada pelo Centro Internacional de Cultura Popular, a convite da associação Autres Brésils.
Nos dias seguintes, a delegação esteve na Assembleia Nacional da França, onde se reuniu com integrantes do grupo de amizade França-Brasil. Também manteve encontros com o gabinete da ministra da Transição Ecológica, da Biodiversidade, da Floresta, do Mar e da Pesca e com a embaixadora para o Meio Ambiente do governo francês.
As reuniões apresentaram as denúncias sobre a cadeia do ouro e buscaram convertê-las em compromissos relacionados a direitos humanos, biodiversidade, combate ao desmatamento e cooperação internacional.
Investigação identifica 25,3 toneladas de ouro sob suspeita
A turnê está apoiada no relatório “Lavagem de Ouro na Amazônia: Anatomia de uma Fraude”, produzido pelo Greenpeace Brasil. A investigação mostra como as Permissões de Lavra Garimpeira — PLGs — podem ser utilizadas para atribuir aparência legal ao ouro extraído de Terras Indígenas, Unidades de Conservação e outras áreas protegidas.
Entre 2018 e março de 2026, foram analisados 187 processos minerários com irregularidades no Pará, em Mato Grosso e em Rondônia. Desse total, 98 são PLGs e concentram 97% do ouro declarado nos processos examinados.
Essas permissões foram associadas à comercialização de aproximadamente 25,3 toneladas de ouro, avaliadas em cerca de R$ 18,4 bilhões. O levantamento utilizou dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), registros fiscais e ambientais, imagens de satélite e sobrevoos de verificação.
A investigação identificou áreas que declararam volumes elevados de ouro sem apresentar sinais compatíveis de exploração. Também encontrou grupos de PLGs vizinhas funcionando como grandes complexos minerários, embora os processos estivessem formalmente separados.
Como funciona a lavagem do ouro
O esquema pode começar com a extração em uma área onde o garimpo não possui autorização. Em seguida, o ouro é atribuído documentalmente a uma PLG válida localizada em outro lugar.
Notas fiscais e declarações passam a indicar que o metal foi produzido dentro de uma área regular. Com essa documentação, ele pode ser adquirido por instituições autorizadas e incorporado ao mercado formal.
O relatório chama esse mecanismo de “transporte virtual”: a origem é transferida no papel, sem que o ouro precise passar fisicamente pela área informada. Uma vez fundido e misturado com metal de outras procedências, torna-se praticamente impossível identificar sua origem sem um sistema confiável de controle desde o ponto inicial da extração.
Garimpos fantasmas e operações em escala industrial
Entre as irregularidades identificadas estão os chamados garimpos fantasmas, nos quais uma PLG declara produção sem que imagens de satélite ou sobrevoos mostrem estruturas compatíveis.
Esses casos correspondem a 29,6% das PLGs irregulares e concentram 48,5% do ouro declarado por elas. Em Itaituba, no Pará, uma área de apenas 1,08 hectare foi associada à produção de 776,68 quilos de ouro, embora permanecesse predominantemente coberta por floresta.
Em outro caso, uma PLG próxima à Terra Indígena Kayapó declarou mais de 2,2 toneladas sem apresentar atividade compatível. Ao mesmo tempo, foram identificados garimpos no território indígena vizinho.
O relatório também encontrou agrupamentos de permissões operando como grandes estruturas contínuas. Esses casos representam 66,3% das PLGs irregulares. Em municípios do norte de Mato Grosso, áreas formalmente separadas apresentavam cavas e tanques integrados, sem correspondência com os limites administrativos de cada processo.
Países Baixos: biodiversidade e intercâmbio internacional
Após a França, a missão seguiu para os Países Baixos.
Em Amsterdã, a delegação participou de um intercâmbio com ativistas do Brasil e da Papua Ocidental. A programação incluiu exibições audiovisuais e debates sobre os impactos da mineração e do agronegócio sobre territórios tradicionais.
Em Haia, a comitiva reuniu-se com o ministro da Biodiversidade e Agricultura dos Países Baixos. O diálogo abordou direitos indígenas, os impactos da importação de soja brasileira pela Holanda e o papel do país nas negociações da Convenção sobre Diversidade Biológica.
A delegação também visitou o navio Arctic Sunrise, do Greenpeace, e participou de entrevistas e encontros com organizações internacionais.

Bélgica: direitos humanos e responsabilidade europeia
Em Bruxelas, a missão concentrou sua atuação junto às instituições da União Europeia. A agenda incluiu entrevistas, reuniões com representantes do Parlamento Europeu e encontros com assessores ligados à pauta dos direitos humanos e às relações com o Brasil.
A delegação defendeu que a União Europeia adote mecanismos de verificação que não se limitem à documentação comercial. A existência de uma nota fiscal ou de uma autorização minerária não comprova a legalidade quando os próprios registros de origem podem ser falsos.
As lideranças também destacaram que o garimpo produz impactos que ultrapassam a esfera ambiental, incluindo violência, exploração sexual, tráfico de pessoas, insegurança alimentar e contaminação das fontes de água.
Mercúrio, saúde e segurança alimentar
A contaminação por mercúrio ocupa lugar central nas denúncias da comitiva. Utilizado para separar o ouro dos sedimentos, o metal alcança os rios, acumula-se nos peixes e entra na alimentação das comunidades.
Segundo dados do WWF-Brasil, 51,7% dos rios avaliados na sub-bacia do Tapajós apresentaram níveis de mercúrio acima dos parâmetros da legislação brasileira.
Uma pesquisa da Fiocruz com 133 gestantes Munduruku encontrou concentrações acima do limite considerado seguro em 98,5% das participantes. A contaminação afeta especialmente o desenvolvimento neurológico das crianças e a saúde reprodutiva das mulheres.
Rastreabilidade precisa começar na origem
Durante cerca de uma década, a legislação brasileira permitiu que as instituições responsáveis pela primeira compra do ouro presumissem a legalidade do metal com base nas informações apresentadas pelo vendedor.
Em março de 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional essa presunção de boa-fé e estabeleceu que os compradores devem verificar a origem lícita do ouro.
A investigação mostra, porém, que permanece outra fragilidade: a aceitação dos volumes declarados pelas PLGs sem pesquisa mineral prévia. Quando a informação inicial é falsa, um sistema digital pode acompanhar o ouro durante todo o percurso e ainda assim legitimar uma origem fraudulenta.
Por isso, as lideranças defendem pesquisa mineral prévia, cruzamento de dados fiscais e ambientais, auditorias independentes, divulgação dos fornecedores e responsabilização de compradores, refinarias e exportadores.

Proteção territorial e apoio direto às organizações indígenas
A comitiva também cobra maior apoio às ações realizadas dentro dos territórios. A proteção da floresta exige monitoramento, agentes indígenas, bases de vigilância, equipamentos, comunicação e articulação com os órgãos públicos.
Organizações como o Instituto Raoni, o Instituto Juma e as associações Munduruku transformam as decisões comunitárias em programas permanentes de defesa territorial.
A delegação defende que os recursos internacionais para conservação cheguem diretamente a essas organizações, respeitando suas formas de decisão. Também reivindica políticas para fortalecer cadeias da sociobiodiversidade, sistemas agroflorestais, artesanato, turismo comunitário e outras atividades capazes de gerar renda e manter os territórios protegidos.
O custo que não aparece no preço
Nos mercados internacionais, o ouro é tratado como ativo financeiro, matéria-prima industrial ou produto de luxo. Sua cotação não inclui os rios contaminados, as doenças, a violência, a destruição das florestas e os custos de recuperação transferidos às comunidades.
A turnê procura inserir esses impactos no debate internacional e mostrar que a distância entre o território de extração e o país consumidor não elimina a responsabilidade.
Depois das agendas na França, nos Países Baixos e na Bélgica, a comitiva retornou ao Brasil. A mensagem permanece a mesma: a cadeia do ouro precisa ser transparente desde a origem, empresas e governos devem responder pelas violações e a proteção das florestas deve incluir apoio direto aos povos indígenas.
Enquanto o ouro atravessa fronteiras, os impactos permanecem nos rios, nas florestas e nos corpos das pessoas. A missão busca transformar essa distância em compromissos concretos de transparência, controle e responsabilização.
Para conhecer em detalhes as evidências reunidas sobre a lavagem de ouro na Amazônia e as medidas necessárias para tornar essa cadeia mais transparente, acesse e baixe o relatório “Lavagem de Ouro na Amazônia: Anatomia de uma Fraude”, produzido pelo Greenpeace Brasil. Também é possível fortalecer essa mobilização assinando o abaixo-assinado da campanha e cobrando de governos, empresas e instituições financeiras mecanismos efetivos de rastreabilidade, responsabilização e proteção dos territórios indígenas.

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