Povo Yudja amplia sistemas agroflorestais e fortalece produção de alimentos nas aldeias

Iniciativa conduzida pelas comunidades articula manejo indígena da paisagem, roças sem fogo, irrigação, recuperação do solo e autonomia produtiva

O povo Yudja vem ampliando, por iniciativa própria, a implantação de Sistemas Agroflorestais em suas comunidades, reunindo espécies agrícolas, frutíferas e florestais em áreas de produção próximas às aldeias. O trabalho busca aumentar a oferta de alimentos, recuperar solos, reduzir perdas durante os períodos de seca, responder aos impactos das mudanças climáticas e fortalecer a capacidade das famílias de conduzir seus próprios projetos produtivos.

As áreas combinam mandioca, macaxeira, banana, milho, amendoim, algodão, pimenta, árvores frutíferas e espécies nativas escolhidas pelas comunidades conforme suas necessidades alimentares, as características do solo e a disponibilidade de água. Parte dos plantios adota o modelo de roça sem fogo, com a permanência da cobertura vegetal e da matéria orgânica sobre o terreno. Sistemas de irrigação também vêm sendo incorporados para assegurar o desenvolvimento das mudas durante a estiagem.

A experiência dialoga com ações desenvolvidas pelo Instituto Raoni no campo da soberania alimentar, dos sistemas agroflorestais e do fortalecimento das atividades produtivas indígenas. Sua continuidade, porém, está sendo assumida diretamente pelos Yudja, que mobilizam conhecimentos anteriores, mão de obra, organização comunitária e recursos disponíveis localmente, sem condicionar o avanço dos plantios à presença permanente ou a novos financiamentos do Instituto.

Yakarewa Juruna, Coordenador do Departamento de Bioeconomia do Instituto Raoni, explica que o contato da comunidade com os SAFs começou antes da implantação das primeiras áreas apoiadas institucionalmente. Oficinas e experiências anteriores já haviam apresentado princípios como adubação verde, cobertura do solo, seleção de espécies e organização dos plantios.

“Nosso envolvimento com os Sistemas Agroflorestais começou antes da implantação das áreas pelo Instituto Raoni. Eu já havia participado de oficinas sobre como iniciar um SAF, fazer adubação verde e escolher as espécies. Quando o Instituto apresentou o projeto para as aldeias, sugerimos que uma das áreas fosse implantada na aldeia Mupá. A partir daí, passamos a acompanhar com mais atenção o desenvolvimento das plantas e a comparar os resultados com os das nossas roças tradicionais”, relata Yakarewa.

A experiência demonstra capacidade de gestão e disposição para compartilhar resultados. Ao consolidarem áreas que podem servir de referência para outras comunidades, os Yudja ampliam o alcance de um trabalho inicialmente localizado. Os conhecimentos produzidos no manejo cotidiano passam a circular entre aldeias, povos e organizações indígenas, incluindo aprendizados sobre irrigação, cobertura do solo, consórcios de espécies e adaptação às secas.

Uma paisagem construída ao longo de milênios

Os Sistemas Agroflorestais atuais integram uma história extensa de manejo indígena das florestas, dos cerrados, das águas e dos solos. Pesquisas arqueológicas, ecológicas e botânicas demonstram que muitas paisagens consideradas durante décadas como ambientes pouco alterados foram influenciadas por ocupações humanas anteriores à colonização europeia.

Na Amazônia, povos indígenas construíram aldeias, caminhos, áreas agrícolas, sistemas de pesca, solos férteis e concentrações de espécies úteis. Castanheiras, palmeiras, frutíferas e outras plantas de importância econômica, alimentar e cultural aparecem com maior frequência nas proximidades de sítios arqueológicos e antigas áreas de ocupação.

A chamada terra preta de índio constitui um dos registros mais conhecidos desse processo. Esses solos, ricos em carbono e nutrientes, foram formados pelo manejo e pelo acúmulo de materiais orgânicos, carvão e fragmentos cerâmicos associados à vida nas aldeias. Pesquisas realizadas em áreas Kuikuro reforçam que a formação desses solos envolveu ações intencionais e prolongadas.

Também no sul da Amazônia e nas zonas de transição com o Cerrado foram identificadas redes de assentamentos, estruturas de terra e paisagens manejadas. Esses registros indicam níveis elevados de ocupação, planejamento territorial e transformação da vegetação antes da invasão europeia.

A expressão “floresta antropogênica” descreve paisagens cuja composição e distribuição de espécies foram influenciadas por gerações de manejo humano. Em determinadas formações do Cerrado, o uso controlado do fogo, a agricultura, a seleção de plantas, os deslocamentos territoriais e a proteção de áreas específicas também contribuíram para formar mosaicos de vegetação.

Reconhecer essa dimensão histórica significa compreender que processos ecológicos e histórias sociais permaneceram conectados durante milênios. As paisagens indígenas foram construídas por relações contínuas entre pessoas, plantas, animais, águas, solos e diferentes regimes de fogo.

Sistemas agroflorestais como continuidade do manejo indígena

Os SAFs associam plantas agrícolas, árvores e arbustos de forma planejada no espaço e no tempo. A diversidade de espécies permite produzir alimentos, proteger o solo, aumentar a cobertura vegetal e distribuir as colheitas ao longo de diferentes períodos.

Em Terras Indígenas, esses sistemas se relacionam frequentemente a práticas anteriores de cultivo, enriquecimento de capoeiras, manejo de quintais, seleção de sementes e circulação de espécies entre famílias e aldeias. Os projetos atuais incorporam recursos como irrigação localizada, produção organizada de mudas, adubação verde, cobertura permanente do solo e planejamento dos consórcios.

A adoção dessas ferramentas ocorre por meio de avaliação comunitária. Os conhecimentos e técnicas são selecionados e adaptados segundo as condições ambientais e as prioridades definidas pelos próprios indígenas.

Na aldeia Mupá, a decisão de ampliar os SAFs também foi motivada pelas alterações observadas nas roças tradicionais. Yakarewa relata que o aumento da temperatura do solo passou a comprometer diretamente algumas culturas.

“As mudanças climáticas nos aproximaram ainda mais dos Sistemas Agroflorestais. Nos últimos anos, percebemos que a produção das roças estava sendo afetada pela quentura do solo. Em áreas sem cobertura vegetal, encontramos batatas e mandiocas praticamente cozidas dentro da terra. Quando uma mudança desse tipo atinge diretamente a produção de alimentos, precisamos buscar outras formas de cuidar do solo e manter as roças produtivas”, afirma.

O relato demonstra como a adaptação climática está sendo construída a partir da observação direta. O conhecimento sobre o comportamento das plantas, o calendário das chuvas e as transformações no solo orienta decisões concretas sobre onde plantar, quais espécies combinar e como proteger a umidade.

A roça sem fogo diante das mudanças climáticas

O fogo integra há milênios os sistemas de manejo de muitos povos indígenas. Seu uso está relacionado à abertura e à renovação de roças, ao manejo de espécies, à limpeza de caminhos e à manutenção de determinados ambientes. As queimadas indígenas obedecem a calendários, condições de umidade, direção dos ventos e conhecimentos detalhados sobre a vegetação.

A intensificação das secas, o aumento das temperaturas, a fragmentação florestal e o acúmulo de material combustível ampliaram os riscos de propagação do fogo. Nesse contexto, as roças sem fogo representam uma alternativa para áreas próximas às aldeias, plantios permanentes, espaços em recuperação e locais onde uma queima poderia atingir mudas ou recursos utilizados pelas comunidades.

Nesse modelo, a vegetação cortada permanece sobre o terreno ou é organizada em linhas e montes. Ao se decompor, essa biomassa ajuda a conservar a umidade, reduz a exposição direta do solo ao sol, alimenta organismos e libera nutrientes gradualmente.

Para os Yudja, evitar o fogo em determinadas áreas também protege espécies utilizadas na construção de casas, na fabricação de canoas, na alimentação e em outras atividades cotidianas.

“Nos Sistemas Agroflorestais, fazemos o plantio durante a época das chuvas e não precisamos usar o fogo. Isso ajuda a proteger recursos importantes para a vida na aldeia, como o inajá, as folhas, os frutos, os cipós e as madeiras usadas na construção das casas e na fabricação de canoas. Sem a queima, diminuímos o risco de o fogo se espalhar e atingir essas espécies”, explica Yakarewa.

A roça sem fogo não representa o abandono geral das práticas tradicionais de queima. Ela constitui uma escolha de manejo para áreas e objetivos específicos. A decisão sobre utilizar, controlar ou evitar o fogo permanece vinculada às condições locais e à avaliação das comunidades.

Cobertura vegetal, umidade e irrigação

A cobertura formada pela vegetação cortada desempenha função estratégica nos SAFs. Conhecida tecnicamente como cobertura morta ou biomassa vegetal, ela reduz a perda de água por evaporação, protege o solo contra a incidência direta do sol e cria condições mais favoráveis para as mudas.

Essa proteção tornou-se especialmente importante durante os períodos de estiagem. Algumas plantas conseguem atravessar a seca por estarem cercadas por matéria orgânica e por manterem as raízes em um ambiente com menor variação de temperatura.

“Como trabalhamos nos SAFs durante a época das chuvas, precisamos pensar no que acontecerá durante o verão e a seca. Na preparação da área, colocamos bastante vegetação sobre o solo, aquilo que os técnicos chamam de massa verde. Essa cobertura protege a terra e ajuda algumas mudas a resistirem por mais tempo sem chuva. Já temos experiência e conseguimos observar quais plantas suportam melhor esse período”, diz Yakarewa.

A instalação de sistemas de irrigação oferece maior regularidade, principalmente durante a fase de formação dos plantios. Mudas jovens possuem raízes ainda pouco desenvolvidas e são mais vulneráveis a períodos prolongados sem precipitação. A disponibilidade controlada de água reduz a mortalidade inicial e permite manter espécies que demandam maior umidade.

O uso da irrigação exige planejamento. É necessário acompanhar a vazão disponível, a capacidade de armazenamento, a distância entre a fonte de água e o plantio, o funcionamento de bombas e mangueiras e a divisão das responsabilidades pela manutenção.

Na experiência mais recente, o sistema foi instalado para garantir a sobrevivência de pimentas, árvores e outras plantas ainda pequenas.

“Neste último plantio, conseguimos instalar a irrigação para a pimenta e para outras espécies que ainda estavam pequenas. O objetivo é ajudá-las a atravessar o verão. A irrigação precisa trabalhar junto com a cobertura do solo, porque a água sozinha não resolve se a terra permanecer exposta ao calor”, observa Yakarewa.

Três ciclos de experimentação

A comunidade da aldeia Mupá já realizou três experiências de implantação de Sistemas Agroflorestais. Cada área permitiu testar combinações de espécies, observar o comportamento do solo e ajustar a organização do trabalho.

Os primeiros resultados vieram das plantas de ciclo mais curto. Macaxeira, mandioca, amendoim, milho e algodão já foram colhidos. As mulheres tiveram participação importante na produção e na colheita do algodão, utilizado em atividades próprias da comunidade.

“Já é a terceira vez que fazemos esse experimento na aldeia. Alguns alimentos produziram resultados desde as primeiras áreas. Tivemos macaxeira, amendoim e bastante algodão, que foi colhido pelas mulheres. No plantio realizado entre 2025 e 2026, colocamos banana, milho, mandioca e várias outras espécies. O milho foi o primeiro a ser colhido e agora chegou o momento da mandioca e da macaxeira”, relata Yakarewa.

Essas culturas criam uma base alimentar durante os primeiros anos do sistema. Enquanto são cultivadas e colhidas, árvores frutíferas e espécies florestais de crescimento mais lento continuam se desenvolvendo.

O planejamento em diferentes ciclos é uma das características centrais dos SAFs. As plantas de crescimento rápido ocupam temporariamente determinados espaços e geram alimento em menor prazo. Outras permanecem por períodos mais longos e passam a cumprir funções relacionadas à produção de frutas, à sombra, à recuperação do solo e à recomposição da cobertura vegetal.

“Além das plantas que produzem mais rápido, colocamos árvores na mesma área. Se tudo se desenvolver bem, essas árvores permanecerão e ajudarão a reflorestar o espaço. Nas áreas mais antigas já temos pés de caju, manga, jatobá e outras espécies. Também plantamos árvores que produzem cabaças usadas para fazer cuias”, afirma.

O plantio da árvore da cuia demonstra que a seleção das espécies não segue somente critérios comerciais ou nutricionais. Ela também considera materiais empregados na vida social e cultural Yudja. As cuias são utilizadas no consumo de água, mingaus e bebidas, além de integrarem práticas e conhecimentos transmitidos entre gerações.

Consórcios e diversidade em áreas reduzidas

Um dos aprendizados acumulados pelas comunidades está relacionado à capacidade de reunir várias espécies em espaços relativamente pequenos. O SAF é organizado por consórcios, considerando o tamanho, a necessidade de luz, o ritmo de crescimento e o período de permanência de cada planta.

Culturas de ciclo curto, como milho, amendoim, mandioca e algumas hortaliças, podem ser combinadas com banana, pimenta, mamão e outras frutíferas. Árvores de crescimento mais lento ocupam os estratos superiores ao longo do tempo.

Essa organização exige acompanhamento para evitar competição excessiva por água, luz e nutrientes. Espaçamentos, podas, reposição de mudas e quantidade de biomassa precisam ser ajustados durante o desenvolvimento da área.

“A diferença é que, mesmo em uma área pequena, conseguimos plantar muitas espécies. Para isso, precisamos entender o consórcio: primeiro entram as plantas de ciclo rápido; depois, aquelas que demoram um pouco mais; e, por fim, as árvores que levam vários anos para crescer. Quando existe empenho e acompanhamento, uma área pequena pode produzir muitas coisas”, explica Yakarewa.

A aldeia Pakissamba também implantou uma área no final de 2024. Segundo Yakarewa, parte das plantas continua produzindo, com destaque para a pimenta.

“Na aldeia Pakissamba, fizemos um SAF no final de 2024 e o pessoal continua colhendo. A pimenta apresentou um resultado muito bom e segue produzindo. A experiência mostra que, com uma área relativamente pequena e bem organizada, é possível manter uma diversidade de frutas, alimentos e outras plantas”, relata.

A continuidade da colheita permite avaliar o comportamento das espécies ao longo de mais de um ciclo climático. Também fornece informações para novas áreas, como necessidade de água, resistência à seca e produtividade.

Segurança alimentar e agrobiodiversidade

Um sistema diversificado pode oferecer alimentos em diferentes épocas do ano. Essa composição distribui riscos, pois secas, pragas ou falhas no plantio tendem a afetar cada espécie de maneira diferente. A presença de vários estratos vegetais também amplia a sombra, retém umidade e aumenta a disponibilidade de flores, frutos e matéria orgânica.

A segurança alimentar indígena envolve o acesso a espécies culturalmente relevantes, a preservação de variedades tradicionais, o controle sobre sementes e mudas e a autonomia para decidir o que plantar e consumir.

Nesse sentido, os SAFs complementam as roças tradicionais, os quintais, a pesca, a caça e a coleta. Sua função precisa ser compreendida dentro do sistema alimentar completo das comunidades, sem transformar uma técnica específica em solução isolada.

Bancos comunitários de sementes, viveiros e intercâmbios entre aldeias podem ampliar a capacidade de resposta às mudanças climáticas e à perda de variedades. A conservação local da agrobiodiversidade permite que sementes e plantas continuem sendo selecionadas conforme as condições ambientais, os usos e as preferências alimentares de cada povo.

Mulheres, jovens e transmissão de conhecimentos

As mulheres ocupam uma posição central na seleção e conservação  de sementes, no manejo dos quintais, no processamento dos alimentos e na avaliação das qualidades das variedades cultivadas.

Nos SAFs Yudja, elas participam da produção de mudas, do plantio, da manutenção e da colheita. O algodão produzido nas áreas da aldeia Mupá, por exemplo, foi colhido pelas mulheres e se relaciona a práticas que envolvem vestimentas, redes, adornos e outros usos comunitários.

Os jovens também participam do preparo das áreas, da irrigação e do monitoramento. A transmissão de conhecimentos ocorre durante o próprio trabalho, quando pessoas mais experientes explicam os períodos de plantio, o comportamento dos solos, os usos das espécies e os sinais das estações.

Esse processo pode incorporar fotografias, mapas, planilhas e registros audiovisuais produzidos por comunicadores indígenas. As ferramentas contribuem para documentar resultados e facilitar o intercâmbio entre comunidades, enquanto a aprendizagem direta permanece vinculada à convivência e à prática no território.

O trabalho do Instituto Raoni

O Instituto Raoni atua no fortalecimento das roças, dos Sistemas Agroflorestais, da produção de mudas e das cadeias da sociobiodiversidade junto aos povos e comunidades que representa. Esse trabalho integra uma agenda mais ampla de gestão territorial, soberania alimentar, autonomia econômica e proteção ambiental.

A instituição contribui com articulação de parcerias, assistência técnica, aquisição de equipamentos e insumos, realização de oficinas, apoio logístico e elaboração de projetos. Também relaciona as ações produtivas ao monitoramento territorial, à prevenção de incêndios, à recuperação de áreas degradadas e ao fortalecimento da participação das mulheres.

Um dos desafios consiste em evitar que os projetos sejam interrompidos quando termina o financiamento externo. Sistemas Agroflorestais exigem cuidados durante vários anos, especialmente na fase inicial. Sua continuidade depende de planejamento comunitário, disponibilidade de ferramentas, acesso à água, reposição de mudas e definição de responsabilidades.

A experiência Yudja mostra que os conhecimentos apresentados durante oficinas e ações apoiadas institucionalmente foram incorporados às decisões comunitárias.

“O Instituto Raoni ajudou na implantação das primeiras áreas, mas nós já tínhamos interesse e algum conhecimento. Com os experimentos, passamos a compreender melhor o funcionamento dos SAFs e decidimos continuar. A cada área, observamos o que deu certo, o que precisa melhorar e quais espécies se adaptam melhor”, resume Yakarewa.

Ao prosseguirem com a implantação e o manejo por seus próprios meios, os Yudja demonstram que o apoio institucional pode fortalecer capacidades já existentes. O Instituto permanece como parceiro para articulação, formação e obtenção de recursos quando solicitado, enquanto a condução cotidiana pertence às comunidades.

Autonomia e cooperação entre aldeias

A decisão de continuar o trabalho sem aguardar uma nova etapa de financiamento modifica uma dinâmica comum em projetos de desenvolvimento, nos quais as atividades se encerram com o término dos contratos.

Nos SAFs conduzidos pelos Yudja, a comunidade incorporou a continuidade ao próprio planejamento. Esse movimento envolve autonomia, responsabilidade e mobilização de trabalho coletivo.

As áreas também podem funcionar como espaços de visita, formação e intercâmbio. Os aprendizados relacionados à irrigação, à seleção de espécies, à cobertura do solo e ao manejo sem fogo podem apoiar outras aldeias que enfrentam condições semelhantes.

A circulação desses conhecimentos exige atenção às particularidades locais. Cada comunidade possui solos, regimes de chuva, disponibilidade de água e formas próprias de organização. Uma técnica aplicada em determinada aldeia precisa ser avaliada e adaptada antes de ser utilizada em outro contexto.

O valor da experiência Yudja está na capacidade de experimentar, acompanhar resultados e reorganizar o sistema sob controle comunitário.

Sociobiodiversidade e proteção territorial

A sociobiodiversidade reúne diversidade biológica, conhecimentos, práticas produtivas e formas de organização social. Nos SAFs, ela se manifesta na seleção de espécies alimentares, frutíferas, medicinais e florestais, na conservação de variedades e na criação de ambientes utilizados por polinizadores, aves e outros animais.

A recuperação da cobertura vegetal próxima às aldeias pode aumentar a infiltração de água, reduzir a erosão e proteger o solo contra temperaturas elevadas. Árvores e arbustos fornecem sombra, biomassa e habitats para diferentes espécies.

Esses benefícios dependem de planejamento e acompanhamento. Um SAF pode enfrentar baixa sobrevivência das mudas, competição entre plantas, falta de mão de obra ou inadequação de determinadas espécies. Por isso, espaçamentos, podas, irrigação e reposição precisam ser avaliados ao longo do tempo.

A proteção territorial permanece indispensável. Áreas produtivas ficam ameaçadas quando as comunidades enfrentam invasões, incêndios, contaminação dos rios ou desmatamento nas proximidades. Produzir alimentos e conservar a biodiversidade depende da garantia dos direitos territoriais e da capacidade de impedir atividades predatórias.

Um projeto de longo prazo

Os SAFs conduzidos pelo povo Yudja exigirão anos de manejo, avaliação e aprendizagem. Árvores frutíferas e espécies florestais possuem ritmos diferentes, e seus efeitos sobre o solo, o microclima e a produção se tornam mais claros com o amadurecimento das áreas.

O acompanhamento precisa considerar a quantidade de alimentos colhidos, a sobrevivência das mudas, a diversidade de espécies, a participação das famílias, a qualidade do solo, o uso da água e a capacidade de manter o sistema com os recursos disponíveis.

As três experiências realizadas na aldeia Mupá e a área implantada em Pakissamba já fornecem informações relevantes sobre culturas de ciclo curto, árvores frutíferas, cobertura do solo e irrigação. Esses resultados orientam novas decisões e permitem aperfeiçoar os consórcios.

A iniciativa amplia a soberania alimentar, cria espaços de experimentação e reafirma o direito das comunidades de decidir como produzir e cuidar de seus territórios. Ela atualiza uma história milenar de construção das paisagens indígenas, na qual agricultura, floresta, água, conhecimento e organização coletiva formam um mesmo processo territorial.

Ao assumirem a continuidade dos SAFs, os Yudja demonstram que a assistência técnica e o apoio institucional produzem resultados consistentes quando fortalecem capacidades presentes nas comunidades. O Instituto Raoni contribui para criar condições, articular recursos e ampliar oportunidades. O planejamento, o manejo e a avaliação diária permanecem sob responsabilidade dos Yudja.

É nessa escala, constituída por decisões locais, trabalho contínuo, observação ambiental e intercâmbio entre aldeias, que os Sistemas Agroflorestais podem se consolidar como parte de uma política indígena de alimentação, adaptação climática, recuperação ambiental e gestão territorial.