Departamento de Bioeconomia do Instituto Raoni fortalece produção de pimenta, mel e copaíba nas comunidades Yudja
Iniciativas desenvolvidas nas Terras Indígenas Capoto Jarina e a Terra Indígena do Xingu buscam estruturar cadeias produtivas comunitárias, ampliar a geração de renda e garantir que a exploração dos recursos naturais respeite os ciclos ambientais e as formas de organização do povo Yudja
O Departamento de Bioeconomia do Instituto Raoni atua no fortalecimento das atividades produtivas desenvolvidas pelas comunidades indígenas associadas à organização. Entre as principais iniciativas conduzidas junto ao povo Yudja, na Terra Indígena Capoto/Jarina e na região norte da Terra Indígena do Xingu, estão a produção de pimenta, mel e óleo de copaíba.
As três cadeias produtivas partem de atividades já presentes na vida das comunidades e procuram ampliar as condições de beneficiamento, armazenamento, organização, comercialização e geração de renda. O trabalho é realizado com participação direta das famílias, das mulheres produtoras de pimenta, dos conhecedores do território e das lideranças comunitárias.
A proposta do Departamento de Bioeconomia é contribuir para que os produtos sejam comercializados com qualidade e regularidade, sem retirar das comunidades o controle sobre as decisões e sobre as formas de produção. Isso envolve discutir preços, apoios na logística, investimento em equipamentos, embalagens, transporte, acesso a mercados e distribuição dos recursos obtidos com as vendas, gerando capital de giro.
A atuação também busca enfrentar dificuldades comuns às comunidades indígenas que produzem em regiões de acesso restrito, como os altos custos de deslocamento, a distância dos centros consumidores, a falta de estruturas adequadas para beneficiamento e armazenamento e a necessidade de cumprir exigências sanitárias e comerciais.

Pimenta produzida pelas mulheres Yudja
A produção de pimenta em pó é conduzida principalmente pelas mulheres Yudja. Elas participam do cultivo, da colheita, da seleção, da secagem, da moagem e da preparação do produto para comercialização.
O trabalho começa nas roças e nos quintais das comunidades, onde são mantidas variedades utilizadas na alimentação das famílias. Depois da colheita, as pimentas passam por uma seleção, na qual são retirados frutos inadequados para o beneficiamento. Em seguida, são secas e moídas até alcançar a textura necessária para a venda.
O cuidado durante o processamento é essencial para preservar o sabor, o aroma, a cor e as condições de conservação do produto. A qualidade final depende do ponto da colheita, do tempo de secagem, da proteção contra umidade e do armazenamento adequado.
A cadeia da pimenta possui uma importância particular para o trabalho das mulheres. Além de serem responsáveis por grande parte da produção, elas participam da organização dos grupos, da divisão das tarefas e das decisões sobre o uso da renda.
O apoio à comercialização permite que uma atividade ligada à alimentação e ao trabalho cotidiano das mulheres também contribua para a manutenção das famílias e para o financiamento de demandas comunitárias. A renda pode ser empregada na compra de ferramentas, utensílios, combustível, alimentos, materiais escolares e outros itens de difícil acesso nas aldeias.
Para o Departamento de Bioeconomia, a estruturação dessa cadeia precisa considerar o ritmo das roças, o calendário comunitário, as responsabilidades familiares e a capacidade de produção de cada aldeia. A proposta não é impor uma produção em larga escala, mas melhorar as condições para que as próprias produtoras definam quanto produzir, quando comercializar e como organizar o trabalho.

Mel e manejo das abelhas
A produção de mel envolve o conhecimento das comunidades sobre as abelhas, as floradas, a vegetação e as mudanças sazonais do território. A disponibilidade do produto está diretamente relacionada à conservação das áreas utilizadas pelas abelhas para alimentação, abrigo e reprodução.
O mel produzido no Território Indígena Capoto/Jarina apresenta características relacionadas às espécies vegetais encontradas em cada região e aos diferentes períodos de floração. Essas condições influenciam o aroma, a cor, a textura e o sabor do produto.
A atividade exige acompanhamento frequente das caixas e das colmeias, além de cuidados durante a retirada, a filtragem, o envase e o armazenamento. O manejo precisa evitar danos às abelhas e garantir que elas mantenham alimento suficiente para continuar suas atividades.
Entre os objetivos do Departamento de Bioeconomia está apoiar a ampliação dos conhecimentos técnicos relacionados à produção, sem desconsiderar a experiência das comunidades. Isso inclui orientações sobre instalação das caixas, prevenção de perdas, higiene, controle de umidade, utilização dos equipamentos e preparação do mel para comercialização.
A produção depende ainda da existência de materiais adequados, como vestimentas de proteção, fumigadores, recipientes, filtros e embalagens. A reposição desses equipamentos representa um desafio devido ao custo do transporte até as aldeias.
Além da venda, o mel possui importância para o consumo comunitário. Por isso, a definição dos volumes destinados ao mercado precisa considerar primeiro as necessidades das famílias e a capacidade produtiva de cada período.
O trabalho com as abelhas também reforça a necessidade de monitorar as condições ambientais do território. Incêndios, desmatamento, alterações nas chuvas e redução da vegetação podem comprometer as floradas e diminuir a oferta de alimento para as colônias. A produção de mel, portanto, depende diretamente da integridade das áreas onde as comunidades vivem e realizam suas atividades.

Copaíba e cuidados com as árvores
O óleo de copaíba é obtido a partir de árvores encontradas em diferentes pontos do território. A localização das copaibeiras, o conhecimento sobre as árvores produtivas e a definição dos períodos de extração fazem parte dos saberes mantidos pelas comunidades.
A retirada precisa ser feita de maneira controlada para evitar ferimentos excessivos no tronco, contaminação do óleo ou danos permanentes à planta. Depois da extração, a abertura deve ser fechada adequadamente, permitindo que a árvore continue seu processo de recuperação.
O tempo entre uma retirada e outra também deve ser respeitado. A exploração frequente ou realizada sem controle pode reduzir a produção e comprometer a saúde das copaibeiras. Por essa razão, o manejo exige planejamento, identificação das árvores utilizadas e acompanhamento das áreas de coleta.
O óleo passa por processos de filtragem, separação de impurezas e armazenamento antes de ser colocado em embalagens. A higiene dos recipientes e a proteção contra calor, luz e contaminação são fatores importantes para a conservação do produto.
A cadeia da copaíba apresenta desafios específicos. As árvores podem estar localizadas a grandes distâncias das aldeias, exigindo deslocamentos pelo rio, trilhas ou estradas internas. O transporte do óleo até os locais de beneficiamento e, posteriormente, até os centros de comercialização aumenta os custos da atividade. Um passo fundamental para conhecer a população de copaíbas no território foram o inventário e oficinas de manejo das copaibeiras. Durante as oficinas jovens das aldeias Mupa e Pakissamba com apoio de um aplicativo, começaram a inventariar as copaibeiras próximas às aldeias, o que possibilitou o conhecimento da quantidade de matrizes para poder se organizar com a coleta de óleo no melhor momento da coleta.
Há ainda a necessidade de garantir que os compradores reconheçam a origem do produto e estabeleçam relações comerciais transparentes. O Departamento de Bioeconomia procura reduzir a presença de intermediários que compram a produção por valores baixos e revendem o óleo com margens muito superiores.
Para a próxima safra prevista entre os meses de agosto e outubro, será necessário fazer análises dos óleos coletados no território para e verificar a viabilidade do mercado em grande escala.
A organização comunitária permite reunir volumes, melhorar a negociação e acompanhar com mais clareza os preços praticados. Também ajuda a definir regras para a retirada do óleo e a distribuição dos resultados entre as pessoas envolvidas.

Estruturação das cadeias produtivas
O trabalho do Departamento de Bioeconomia não se limita à divulgação ou à venda dos produtos. A atuação envolve todas as etapas anteriores à comercialização, desde a identificação das comunidades interessadas até o planejamento da produção e a avaliação dos resultados.
Um dos eixos é o diagnóstico das condições existentes em cada aldeia. Antes de ampliar uma cadeia produtiva, é necessário verificar quais equipamentos estão disponíveis, quem participa da atividade, quais são os volumes possíveis, como o produto será transportado, onde poderá ser armazenado e as propriedades químicas dos óleos coletados para assim poder garantir sucesso no mercado. Uma das caraterísticas importantes apontada por uma empresa parceira que fará as análises, é a qualidade dos aromas do óleo, pois enquanto mais cheiroso, maior possibilidade de compra para seu uso na indústria cosmética e medicinal.
Outro ponto é o fortalecimento da gestão. As comunidades precisam ter acesso às informações sobre quantidade produzida, custos, valores de venda, despesas de transporte e saldo final. O registro dessas informações contribui para prevenir conflitos, acompanhar os resultados e definir os próximos investimentos.
A formação de preços também precisa levar em conta os custos reais da produção indígena. Um produto retirado ou cultivado em uma aldeia distante não pode ser calculado apenas com base no valor cobrado por produtos semelhantes nas cidades. É necessário considerar combustível, transporte fluvial ou terrestre, embalagens, equipamentos, tempo de trabalho e possíveis perdas ao longo do caminho.
Sem esse cálculo, há o risco de que a comercialização gere movimento, mas não produza retorno suficiente para as famílias. A bioeconomia só se sustenta quando a renda obtida cobre as despesas, remunera o trabalho e permite reinvestir na atividade.

Comercialização e autonomia comunitária
A comercialização de produtos indígenas exige atenção às relações estabelecidas com empresas, instituições, lojas, feiras e consumidores. O crescimento da procura por produtos associados à conservação ambiental nem sempre resulta em condições justas para quem produz.
Uma das preocupações do Instituto Raoni é garantir que a imagem das comunidades e de seus territórios não seja utilizada apenas como recurso de marketing. As informações apresentadas nas embalagens e nos materiais de divulgação devem corresponder à realidade da produção e contar com a autorização das comunidades.
O nome do povo, as imagens das pessoas, os grafismos e os conhecimentos relacionados aos produtos não podem ser apropriados sem diálogo e consentimento. O fortalecimento da bioeconomia depende também da proteção desses direitos.
Outro aspecto é a participação das comunidades nas decisões comerciais. Os produtores precisam conhecer os compradores, os valores negociados, os prazos de pagamento e os destinos dos produtos. A transparência reduz a dependência de agentes externos e amplia a capacidade de negociação.
O Departamento de Bioeconomia atua como apoio na construção dessas relações, mas as decisões sobre a produção permanecem sob responsabilidade das comunidades. São elas que definem os limites, as prioridades e as formas de participação.
A participação da pimenta, do mel e do óleo de copaíba produzidos pelas comunidades Yudja na rede Origens Brasil® amplia as possibilidades de comercialização e fortalece a identificação da origem indígena desses produtos. A iniciativa conecta organizações comunitárias, instituições de apoio, empresas e consumidores comprometidos com relações comerciais mais transparentes, com a valorização do trabalho dos produtores e com a conservação dos territórios.
Por meio do sistema de rastreabilidade da rede, os consumidores podem acessar informações sobre a procedência e a história dos produtos, enquanto as comunidades passam a integrar espaços de negociação, formação e articulação voltados à economia da sociobiodiversidade. Para o Departamento de Bioeconomia do Instituto Raoni, essa participação contribui para dar visibilidade à produção Yudja, qualificar o acesso aos mercados e estabelecer parcerias que respeitem as formas de organização, os conhecimentos e as decisões das comunidades.

Produção vinculada à gestão do território
As cadeias de pimenta, mel e copaíba estão relacionadas à gestão das Terras Indígenas Capoto Jarina e Xingu. As roças, as áreas de coleta, as árvores, as floradas e os caminhos utilizados pelas famílias fazem parte de um sistema territorial conhecido e manejado pelas comunidades.
A continuidade das atividades depende da proteção contra invasões, incêndios, desmatamento, exploração ilegal e outros impactos. Quando uma área é degradada, não se perde apenas um recurso comercial. Também são afetados os locais de cultivo, coleta, alimentação, circulação e transmissão de conhecimentos.
Por esse motivo, o trabalho do Departamento de Bioeconomia precisa estar articulado às ações de proteção territorial, prevenção de incêndios, monitoramento ambiental e fortalecimento das formas de governança comunitária.
A produção não substitui as políticas públicas nem pode ser apresentada como solução isolada para os desafios enfrentados pelas comunidades. Saúde, educação, transporte, energia, comunicação e proteção territorial continuam sendo responsabilidades do Estado.
A geração de renda pode, contudo, ampliar as condições para que as comunidades atendam determinadas necessidades e fortaleçam suas próprias iniciativas. Quando estruturada com planejamento e controle comunitário, a comercialização contribui para reduzir relações de dependência e valorizar atividades já realizadas nos territórios.
Próximos desafios
Entre os principais desafios estão a melhoria das estruturas de beneficiamento, a aquisição de equipamentos, a regularização sanitária, a aquisição de embalagens adequadas e a criação de canais permanentes de comercialização.
Também é necessário investir na formação de jovens e de novos produtores para garantir a continuidade das atividades. A participação das mulheres deve ser acompanhada de condições concretas para que elas tenham voz nas decisões, acesso aos recursos e reconhecimento pelo trabalho realizado.
Outro desafio é evitar que o aumento da procura provoque pressão sobre as áreas de produção. A ampliação das vendas deve respeitar a capacidade de cada comunidade, os períodos de descanso das áreas, os ciclos das plantas e a disponibilidade dos produtos.
No caso da copaíba, isso significa controlar a frequência da extração e acompanhar as árvores utilizadas. Na produção de mel, envolve preservar áreas de florada e respeitar a dinâmica das colmeias. Na cadeia da pimenta, requer manter a diversidade das roças e evitar que a demanda comercial comprometa outros cultivos destinados à alimentação.
A atuação do Departamento de Bioeconomia do Instituto Raoni procura consolidar essas atividades por meio de planejamento, assistência técnica, organização comunitária e acesso a mercados. O objetivo é criar condições para que as comunidades Yudja desenvolvam seus produtos com autonomia, recebam uma remuneração compatível com o trabalho realizado e mantenham o controle sobre os recursos e conhecimentos associados ao território.
Autoras: Silmara de Oliveira Costa e Carolina Sobreiro
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