Realizado na Aldeia Piaraçú, encontro fortaleceu a articulação entre mulheres Mẽbêngôkre, Tapayuna, Trumai, Yudja e Panará e consolidou reivindicações sobre proteção territorial, consulta, gestão, políticas públicas e alternativas econômicas sustentáveis
Entre os dias 22 e 25 de setembro de 2026, mais de 150 mulheres dos povos Mẽbêngôkre, Tapayuna, Trumai, Yudja e Panará estiveram reunidas na Aldeia Piaraçú, na Terra Indígena Capoto/Jarinã, durante a III Assembleia do ROPNI – Departamento de Mulheres do Instituto Raoni. Durante quatro dias, mulheres de diferentes aldeias, gerações e territórios participaram de um amplo processo de escuta, avaliação e construção coletiva. Ao lado das equipes do ROPNI e do Instituto Raoni, elas discutiram desafios vividos nas comunidades, ameaças aos territórios, participação nos processos de consulta e decisão, gestão territorial, políticas públicas e alternativas de geração de renda compatíveis com a proteção ambiental e os modos de vida indígenas.
A Assembleia também contou com a presença de parceiros e aliados, entre eles Renata Pinheiro, da Conservação Internacional, Maria Anarrory, da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (FEPOIMT), representantes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI): Aparecida de Jesus dos Santos da Divisão de Atenção à Saúde-DIASI/KMT da Pasta: Atenção Psicossocial e Promoção do Bem Viver Indígena e Medicinas Indígenas Brasileiras, Sirlei Siraiup Kayabi assessora técnica indígena do DSEI e integrantes da Brigada Indígena do Prevfogo.
Ao final do encontro, as participantes aprovaram a Carta-Manifesto da III Assembleia do ROPNI, documento que reúne as principais reflexões, reivindicações e compromissos construídos durante os quatro dias de trabalho.
Assembleia construída a partir das experiências das mulheres
A programação teve início no dia 22 de setembro com a abertura dos trabalhos, a apresentação das participantes e das aldeias presentes e uma contextualização sobre a atuação do Instituto Raoni e a trajetória do ROPNI – Departamento de Mulheres. O primeiro dia foi também dedicado à escuta das expectativas das participantes e à construção e validação da programação. As próprias mulheres contribuíram para definir os assuntos que deveriam ser aprofundados nos dias seguintes, trazendo preocupações vividas em suas comunidades e temas considerados prioritários.
Esse processo reforçou uma das ideias centrais que atravessaram toda a Assembleia: as mulheres indígenas conhecem de perto a realidade de suas aldeias e precisam participar diretamente dos espaços onde são tomadas decisões sobre suas vidas e seus territórios. Elas acompanham cotidianamente as condições de saúde, educação e alimentação, participam das roças, das atividades produtivas, do cuidado com crianças, jovens e anciãos e conhecem rios, igarapés, matas, caminhos e áreas de uso tradicional. Esses conhecimentos também fazem parte da gestão e da proteção territorial.

Fotos de Bepmoro i Metuktire – Instituto Raoni
Proteção territorial e demarcação de Kapôt Nhinore
As ameaças aos territórios ocuparam parte central das discussões do dia 23. As mulheres retomaram a importância da luta de seus ancestrais e das lideranças que enfrentaram diferentes ameaças para assegurar a proteção e a demarcação dos territórios onde hoje vivem seus povos. Nesse contexto, uma das principais reivindicações reafirmadas durante a Assembleia foi a conclusão da demarcação da Terra Indígena Kapôt Nhinore, território tradicional dos povos Mẽbêngôkre e Yudja.
A defesa de Kapôt Nhinore foi apresentada como continuidade de uma luta histórica, relacionada não apenas ao reconhecimento formal da terra, mas à garantia das condições para a reprodução física, cultural e social dos povos que mantêm vínculos tradicionais com esse território. As discussões destacaram ainda que os territórios onde atua o Instituto Raoni somam mais de 3 milhões de hectares de florestas, rios, cerrado, biodiversidade e lugares de vida. Sua proteção exige organização, presença constante, vigilância e prevenção. Nesse trabalho, foi reconhecida a atuação das próprias comunidades e do Departamento de Gestão e Proteção Territorial do Instituto Raoni, considerando que proteger o território também significa identificar riscos antes que invasões, incêndios e outros ilícitos avancem.

Fotos de Bepmoro i Metuktire – Instituto Raoni
Um modelo de desenvolvimento ligado ao território e ao bem-viver
Os debates sobre proteção territorial também abriram espaço para uma discussão mais ampla sobre desenvolvimento. Na Carta-Manifesto, as mulheres defendem uma concepção de desenvolvimento baseada na proteção da terra, na manutenção da floresta em pé, na qualidade dos rios, na alimentação, na saúde, na cultura, na educação, na autonomia, no conhecimento e na geração de renda sustentável.
O documento questiona a ideia de que a terra só é produtiva quando transformada em pasto, monocultura, área de garimpo, estrada ou empreendimento. Para as participantes, os territórios indígenas demonstram que existem outras formas de produzir, viver e cuidar da terra. Ao manter florestas, nascentes, rios e igarapés preservados, os povos indígenas contribuem para a conservação da biodiversidade e para a manutenção dos ciclos das águas. Ao mesmo tempo, a Assembleia reforçou que os territórios não podem ser compreendidos apenas pelos serviços ambientais que prestam. São espaços onde estão presentes histórias, conhecimentos, línguas, alimentos, remédios, relações com outros seres, lugares sagrados e memórias ancestrais. A proteção territorial, portanto, está diretamente ligada à continuidade dos próprios povos.
Empreendimentos, estradas e impactos sobre as comunidades
Ao longo do segundo dia, as mulheres também discutiram diferentes iniciativas e atividades econômicas que podem provocar impactos dentro e no entorno das Terras Indígenas. Entre os temas abordados estiveram empreendimentos, projetos de infraestrutura, a MT-322 e outras intervenções capazes de gerar mudanças na dinâmica dos territórios e das comunidades.
A preocupação central foi com projetos que chegam às aldeias sem informação suficiente, sem diálogo prévio e sem participação adequada das comunidades nos processos de decisão. Também foram discutidas políticas públicas de habitação, incluindo a construção de casas populares. As participantes reforçaram a necessidade de que iniciativas desse tipo sejam construídas respeitando as formas próprias de organização, as necessidades das comunidades, seus costumes e seus processos internos de decisão. A Carta-Manifesto reafirma que políticas públicas direcionadas aos povos indígenas precisam ser construídas com seriedade e respeito às suas línguas, tradições, formas de organização e prioridades.

Fotos de Bepmoro i Metuktire – Instituto Raoni
Mulheres reivindicam participação desde o início dos processos de consulta
No dia 24 de setembro, a programação avançou para a participação das mulheres nos processos de consulta e decisão. Um dos principais temas foi o Protocolo de Consulta da Terra Indígena Capoto/Jarinã, instrumento que estabelece como as comunidades desejam ser consultadas diante de iniciativas, políticas, empreendimentos ou medidas que possam afetá-las.
A discussão reforçou que consulta não deve significar apenas comunicar uma decisão já tomada. Para que seja efetiva, é necessário oferecer informação clara, tempo para que os assuntos sejam discutidos nas aldeias, respeito às formas próprias de organização e condições para que as comunidades possam avaliar e decidir coletivamente. As mulheres também reivindicaram participação direta nesses processos.
A Carta-Manifesto afirma que elas precisam estar presentes desde o começo das consultas e também integrar as instâncias de governança das políticas públicas relacionadas às suas vidas e aos seus territórios. Essa demanda está diretamente ligada ao conhecimento que possuem sobre o cotidiano das comunidades e sobre os impactos que transformações territoriais podem provocar nas famílias, na alimentação, nas roças, nos rios, na saúde e na organização das aldeias.

Fotos de Bepmoro i Metuktire – Instituto Raoni
PGTA e a presença das mulheres na gestão dos territórios
Outro tema aprofundado durante a Assembleia foi o Plano de Gestão Territorial e Ambiental – PGTA da Terra Indígena Capoto/Jarinã. As participantes defenderam que o plano seja efetivamente colocado em prática e que incorpore os conhecimentos, as experiências e as prioridades das mulheres. A gestão territorial não se restringe à vigilância dos limites físicos das Terras Indígenas. Ela envolve decisões sobre uso dos recursos naturais, roças, coleta, produção, geração de renda, proteção ambiental, alimentação e planejamento das atividades comunitárias. As mulheres participam cotidianamente dessas diferentes dimensões e, por isso, reivindicam participação efetiva na formulação e implementação das políticas e instrumentos de gestão territorial.
Turismo de pesca esportiva gera preocupação
O turismo realizado dentro dos territórios sem planejamento e consulta adequada foi outro tema importante da III Assembleia. Na Carta-Manifesto, as participantes se posicionam contra o turismo de pesca esportiva predatória nos territórios indígenas. As preocupações apresentadas incluem a entrada descontrolada de pessoas de fora, pressão sobre os peixes e os rios, consumo de bebidas alcoólicas, conflitos entre famílias e lideranças, desrespeito às regras comunitárias e alterações na vida cotidiana das aldeias.
As mulheres defendem que qualquer iniciativa turística deve respeitar as decisões coletivas, as formas próprias de organização de cada povo, a proteção ambiental e a repartição justa de benefícios. Acima de tudo, destacam que cabe às comunidades decidir se querem ou não desenvolver atividades de turismo em seus territórios e estabelecer as regras sob as quais essas iniciativas poderão ocorrer.

Fotos de Bepmoro i Metuktire – Instituto Raoni
Alternativas econômicas a partir das escolhas das comunidades
A geração de renda também apareceu como uma das prioridades para o futuro. As mulheres defendem o fortalecimento de alternativas econômicas construídas a partir das próprias comunidades e compatíveis com a proteção dos territórios. Entre as possibilidades destacadas estão as roças, o artesanato, a costura, a coleta e o beneficiamento de produtos da floresta, os conhecimentos tradicionais e outras atividades capazes de gerar renda sem comprometer os recursos naturais e a vida das futuras gerações. Essa perspectiva relaciona autonomia econômica e proteção territorial, buscando caminhos que fortaleçam as comunidades sem reproduzir modelos baseados na destruição da floresta e na exploração intensiva dos recursos naturais.
Prevfogo apresenta trajetória do Manejo Integrado do Fogo
A Assembleia também contou com a participação da Brigada Indígena do Prevfogo, que apresentou o trabalho desenvolvido nos territórios e realizou uma recapitulação da trajetória das ações de Manejo Integrado do Fogo nos últimos anos. A apresentação permitiu retomar experiências de prevenção, manejo, formação de brigadistas e atuação diante de incêndios florestais.
Os impactos do fogo são uma preocupação direta das comunidades porque podem atingir florestas, roças, áreas de coleta, animais, recursos naturais e espaços fundamentais para a vida das aldeias. As ações de manejo integrado buscam reduzir riscos e fortalecer a capacidade de prevenção e resposta, articulando estratégias técnicas com os conhecimentos indígenas sobre o território.

Fotos de Bepmoro i Metuktire – Instituto Raoni
Parceiros acompanham debates e prioridades
Durante os quatro dias, representantes de instituições parceiras acompanharam as discussões e tiveram a oportunidade de ouvir diretamente as prioridades apresentadas pelas mulheres. Entre os participantes estiveram Renata Pinheiro, da Conservação Internacional, Maria Anarrory, da FEPOIMT, representantes do DSEI e integrantes do Prevfogo. A presença desses parceiros contribuiu para aproximar as instituições das demandas construídas durante a Assembleia e reforçar a importância de que projetos, políticas e ações futuras sejam formulados em diálogo com as comunidades.
Fotos de Bepmoro i Metuktire – Instituto Raoni
Carta-Manifesto reúne reivindicações da Assembleia
No dia 25 de setembro, o encontro chegou ao encerramento com falas das mulheres, da equipe do ROPNI e do Instituto Raoni e a leitura da Carta-Manifesto da III Assembleia do ROPNI. O documento sintetiza as principais preocupações e propostas debatidas ao longo dos quatro dias e consolida um posicionamento coletivo sobre proteção territorial, demarcação, desenvolvimento, consulta, gestão, turismo, geração de renda e participação das mulheres.
A Carta reafirma que a proteção dos territórios está diretamente relacionada à continuidade das culturas, à segurança das famílias e ao futuro das próximas gerações. Também reforça o papel do ROPNI como espaço de articulação entre mulheres de diferentes povos, fortalecimento de lideranças e ampliação de sua presença nos processos de decisão.
Ao reunir mais de 150 mulheres na Aldeia Piaraçú, a III Assembleia permitiu compartilhar experiências que muitas vezes são vividas separadamente em diferentes comunidades e construir respostas coletivas para desafios comuns. As mulheres encerraram o encontro reafirmando sua responsabilidade com os territórios recebidos de seus ancestrais e com as gerações que ainda virão.
Com o apio da Conservação Internacional e do Instituto Clima e Sociedade, a Assembleia terminou no dia 25, mas os encaminhamentos construídos ao longo dos quatro dias seguem para as aldeias e para a atuação do ROPNI e do Instituto Raoni. A mensagem registrada na Carta-Manifesto resume o sentido do encontro: território protegido é vida, e o futuro dos povos indígenas também precisa ser construído com a participação, as decisões e a voz das mulheres.


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