Arte Indígena do Instituto Raoni lança site de vendas e amplia conexão entre territórios, artesãos e consumidores
Plataforma reúne produções Mẽbêngôkre, Trumai, Yudja e Tapayuna e fortalece uma cadeia produtiva baseada em conhecimento ancestral, autonomia e proteção territorial
A Arte Indígena do Instituto Raoni inaugura uma nova etapa de sua trajetória com o lançamento de seu novo site de vendas. A plataforma foi criada para ampliar o acesso às peças produzidas por artesãs e artesãos indígenas, aproximar os territórios de consumidores de diferentes regiões e fortalecer uma cadeia produtiva que articula cultura, geração de renda e autonomia.
Mais do que um espaço de comercialização, o novo site apresenta a diversidade das produções dos povos Mẽbêngôkre-Kayapó, Trumai, Tapayuna e Yudja. Pulseiras, colares, cintos, cestos, cerâmicas, bordunas, remos, bancos, cuias e outros artefatos chegam ao público acompanhados das histórias, dos conhecimentos e das relações que orientam sua criação.
A iniciativa Arte Indígena foi criada pelo Instituto Raoni com a intenção de fortalecer a cadeia produtiva do artesanato dos povos associados à organização. Seu objetivo é levar essa produção para além dos territórios, gerando renda e formando uma rede de apoio entre consumidores, artesãs e artesãos e divulgando a potência criativa e a força dos povos da floresta.
O Instituto Raoni representa comunidades Mẽbêngôkre-Kayapó, Trumai, Tapayuna e Yudja no acesso a políticas públicas, na defesa de direitos e no fortalecimento de atividades culturais capazes de gerar renda e contribuir para a proteção dos territórios.

Uma história que começa nas aldeias
A história da Arte Indígena começou muito antes da criação de uma marca, de um catálogo ou de uma loja virtual. Ela nasce nos momentos em que uma mãe ensina a filha a trabalhar com miçangas, um pai mostra ao filho como retirar e modelar a madeira ou uma comunidade se reúne para definir as cores, os desenhos e os adornos que serão usados em uma festa.
São conhecimentos transmitidos pela observação, pela prática e pela convivência. Cada povo possui suas técnicas, seus grafismos, seus materiais, suas regras de produção e suas formas próprias de compreender os objetos.
A iniciativa foi estruturada pelo Instituto Raoni para apoiar a continuidade desses conhecimentos, apresentar ao público não indígena a diversidade das produções e fortalecer economicamente as comunidades responsáveis por mantê-las.
Esse trabalho está diretamente relacionado à missão institucional de proteger os povos e seus territórios, fortalecer as culturas indígenas e apoiar atividades econômicas que valorizem a floresta em pé. Entre as frentes de atuação do Instituto estão a comercialização das peças produzidas nas comunidades e o extrativismo sustentável de produtos florestais não madeireiros.

Um novo canal para fortalecer a cadeia do artesanato
O lançamento do site amplia o trabalho que o Instituto Raoni já realiza na compra, organização, divulgação e comercialização das peças. A plataforma cria um canal direto para que consumidores conheçam as produções e contribuam para a continuidade dessa cadeia.
A proposta não é apenas ampliar as vendas. É apresentar quem produz, de quais povos e territórios vêm as peças e quais conhecimentos estão reunidos em cada trabalho. Porque vai além da peça em si , é cultura imaterial, é saber, é história demostrada nas peças.
Ao organizar essa comercialização, o Instituto busca reduzir as distâncias entre as aldeias e o mercado, oferecer maior visibilidade aos artesãos e artesãs e criar condições para que os recursos gerados retornem às comunidades e às pessoas responsáveis pela produção.
O site também contribui para enfrentar um desafio histórico: o consumo de arte indígena sem informação sobre sua origem, seus significados ou seus produtores. Ao contextualizar as peças, a iniciativa procura estabelecer uma relação mais consciente e responsável com o público.
Assim, cada compra passa a integrar uma rede de apoio. De um lado estão artesãs, artesãos, famílias e comunidades; de outro, consumidores que reconhecem o valor do trabalho indígena e ajudam a sustentar sua continuidade.

Os objetos como registros de conhecimento
A Arte Indígena não foi criada para transformar peças indígenas em mercadorias descontextualizadas. Pulseiras, colares, cintos, cestos, cerâmicas, bordunas, remos, bancos, cuias e outros artefatos carregam histórias, relações sociais e conhecimentos acumulados durante gerações.
Mayalú Kokometi Waurá Txukarramãe explica que a iniciativa procura apresentar a sabedoria dos povos indígenas à sociedade não indígena e, ao mesmo tempo, apoiar as comunidades para que continuem desenvolvendo suas práticas. Uma peça não representa somente um material: ela registra um conhecimento construído no território e traduzido na produção de peças.
Aquilo que muitas vezes é visto externamente apenas como criatividade resulta de anos de aprendizagem. As formas, as combinações de cores, a preparação dos materiais e os modos de produção são aprendidos nas relações entre mães, filhas, avós, pais, filhos, mestres e aprendizes.
Esses objetos também possuem funções que ultrapassam a comercialização. Alguns integram a vestimenta, as festas e as cerimônias; outros são empregados na roça, na pesca, no transporte de alimentos, no preparo de bebidas e na vida cotidiana.

O catálogo como marco da iniciativa
Um dos principais resultados dessa trajetória foi a elaboração do Catálogo de Arte Indígena do Instituto Raoni, publicado em 2023. A obra reúne textos, relatos, fotografias e informações sobre os povos associados ao Instituto Raoni, os territórios e as técnicas de produção.
A publicação foi construída com participação indígena e colaboração das aldeias Kaweretxico, Metyktire, Mupa, Pakaya e Wani Wani. O projeto recebeu apoio financeiro da Agência Francesa de Desenvolvimento e da Conservação Internacional do Brasil.
O catálogo não foi concebido somente como uma vitrine de produtos. Ele registra narrativas contadas pelos próprios povos e apresenta a história social de cada objeto. Ao lado das fotografias das peças, estão informações sobre seus usos, materiais, processos de aprendizagem e vínculos com festas, alimentos, animais, plantas e histórias de origem.
A publicação também evidencia que não existe uma única “arte indígena”. Cada povo possui formas específicas de criar, utilizar e interpretar seus objetos. Essa diversidade é um dos princípios que orientam o novo site.

Arte Mẽbêngôkre: grafismos, adornos e festas
Entre os Mẽbêngôkre, os enfeites, chamados nekretx, estão ligados às famílias e aos grandes rituais. Determinados cocares, colares e adornos pertencem a grupos familiares específicos e são transmitidos entre gerações.
As pinturas corporais, produzidas principalmente com jenipapo, carvão e urucum, acompanham a vida desde a infância. Muitos desenhos são inspirados em animais presentes nos territórios, como o jabuti, a anta e diferentes espécies de peixes.
A produção contemporânea com miçangas desenvolveu-se a partir desses grafismos. As mulheres passaram a transferir as formas das pinturas para pulseiras, braçadeiras, colares e cintos.
As peças são utilizadas no cotidiano e, especialmente, nas festas, quando diferentes grupos definem conjuntamente os desenhos e as cores de seus adornos.
O catálogo também registra tipóias de algodão, cestos de fibras naturais, pentes, bordunas, tornozeleiras feitas com sementes de pequi e diferentes modelos de colares e brincos.

Arte Trumai: cerâmica, esteiras e formação
Para o povo Trumai, a Casa dos Homens é um importante espaço de formação. Nela são transmitidos conhecimentos sobre histórias, músicas, festas, pesca, caça, roça e produção de artefatos.
A cerâmica Trumai é feita por mulheres e homens. As peças são moldadas pela sobreposição de rolos de barro, alisadas, secas, queimadas e posteriormente pintadas com tintura natural. As mulheres produzem recipientes utilizados para cozinhar e armazenar alimentos, enquanto os homens também elaboram formas inspiradas em animais.
As esteiras, chamadas tuwawi, podem ser usadas para cobrir panelas, colocar beijus, dividir peixes, guardar objetos de pajé ou secar polvilho. Seus desenhos fazem referência a peixes e a outros elementos da vida no Xingu.
Os Trumai também produzem cuias, remos, bancos, adornos de miçanga e peças de algodão, articulando sua produção às festas, à agricultura e às histórias transmitidas pelos mais velhos.

Arte Yudja: conhecimentos dos donos do rio
Os Yudja, cujo nome pode ser traduzido como “donos do rio”, possuem uma relação histórica profunda com o Xingu, suas águas, canoas e remos.
Suas narrativas contam que parte dos conhecimentos sobre os artefatos foi ensinada pelos animais. Na história da cerâmica, por exemplo, o caranguejo mostrou às mulheres onde encontrar a argila e como utilizá-la para produzir panelas.
A fabricação envolve cuidados durante a preparação, a secagem e a queima. As cerâmicas podem receber pigmentos preparados com carvão e resinas naturais.
Outra narrativa conta que os Yudja aprenderam com a ariranha quais madeiras utilizar para fazer canoas e remos. Atualmente, os homens produzem remos e miniaturas de canoas, enquanto as mulheres realizam pinturas com grafismos tradicionais nesses objetos e na cerâmica produzida por elas.
A produção Yudja também inclui cuias de cabaça, banquinhos esculpidos em peças únicas de madeira, pulseiras de palha, cintos, colares, bordunas e adornos de algodão.
O catálogo ressalta, contudo, que nem todo grafismo pode ser comercializado. Alguns desenhos possuem caráter sagrado e seu uso deve respeitar os conhecimentos e as decisões do próprio povo.

Arte Tapayuna: continuidade depois da violência
A produção Tapayuna está ligada à resistência de um povo profundamente afetado pela invasão de seu território e pela violência praticada por não indígenas.
Os Tapayuna viviam na região dos rios Arinos e do Sangue, em Mato Grosso, e sofreram um processo de envenenamento que reduziu drasticamente sua população. Parte do povo passou a viver com os Mẽbêngôkre na Terra Indígena Capoto/Jarina e outra parte na Terra Indígena Wawi onde convivem com o povo Kisedje.
Mesmo diante dos deslocamentos, das perdas e das mudanças linguísticas e culturais, os Tapayuna mantiveram conhecimentos próprios. Seus artefatos incluem flechas com diferentes tipos de ponta, cabaças, bordunas, tornozeleiras com sementes de pequi, cestos, pilões, peças de algodão e colares feitos com sementes de inajá e tucum.
As crianças começam aprendendo a fazer pequenas flechas e, à medida que crescem, acompanham os adultos na confecção das peças usadas na caça.
A convivência com outros povos também possibilitou trocas técnicas. Os Tapayuna aprenderam com as mulheres Mẽbêngôkre a produzir adornos de miçangas e incorporaram novos conhecimentos sem abandonar as características próprias de sua arte.

Mulheres no centro da cadeia produtiva
Embora homens e mulheres participem da produção, as mulheres ocupam uma posição central na iniciativa. Elas produzem grande parte das pulseiras, colares, cintos, brincos e outros trabalhos de miçangas, além de cerâmicas, peças de algodão, cestos e cuias, conforme as tradições de cada povo.
O aprendizado começa na infância. As meninas observam mães, avós, tias e outras mulheres, acompanham a preparação dos materiais e gradualmente passam a criar seus próprios trabalhos.
Não se trata de uma formação separada da vida comunitária. O conhecimento circula durante as festas, as conversas, o trabalho na roça, o cuidado com as crianças e os encontros entre famílias.
A comercialização permite que muitas artesãs obtenham renda própria, adquiram materiais, atendam a necessidades pessoais e contribuam com suas famílias.
O fortalecimento econômico também pode ampliar a participação das mulheres em outras áreas, como sistemas agroflorestais, cadeias produtivas, monitoramento territorial, gestão de projetos e espaços de decisão política.
O site foi criado também para dar maior visibilidade a esse trabalho e ampliar as oportunidades de circulação das peças produzidas pelas mulheres.

Tradição em transformação
A trajetória da Arte Indígena mostra que tradição não significa imobilidade. As técnicas permanecem vinculadas às histórias e aos conhecimentos antigos, mas as novas gerações também incorporam materiais, formas e referências contemporâneas.
Entre jovens Mẽbêngôkre, por exemplo, símbolos presentes em celulares e redes sociais, como corações e rostos sorridentes, passaram a aparecer nas peças de miçanga.
Essas criações alcançam novos públicos e podem aproximar jovens não indígenas das histórias e das causas dos povos.
A utilização de miçangas industrializadas também mostra esse processo. O material chegou após o contato com os não indígenas, mas foi incorporado a sistemas próprios de grafismo, vestimenta e cerimônia.
As culturas indígenas não permanecem congeladas. Elas selecionam, transformam e atribuem novos sentidos ao que chega de fora.

Comprar uma peça é apoiar uma história coletiva
No texto que encerra o catálogo, Matsi Waurá Txucarramãe define a Arte Indígena como uma forma de apresentar a existência, as histórias e a essência de povos que coexistem e resistem no território brasileiro. Para ele, as peças não são somente produtos: são expressões de ancestralidade, sentimento e conhecimento coletivo.
O lançamento do site da Arte Indígena do Instituto Raoni permite que mais pessoas conheçam e adquiram peças produzidas diretamente pelas comunidades representadas pela instituição.
Cada peça disponível na plataforma percorre um caminho que começa no território. Nesse percurso estão a pessoa que realizou o trabalho, os familiares que transmitiram a técnica, a comunidade na qual o conhecimento circula e a floresta que fornece parte dos materiais.
Comprar uma peça, portanto, não significa apenas adquirir um acessório ou objeto decorativo. Significa reconhecer o trabalho de uma artesã ou de um artesão, colaborar com a geração de renda e apoiar a continuidade de conhecimentos que atravessam gerações.
Também significa fortalecer uma iniciativa conduzida por uma organização indígena que atua na defesa dos direitos, das culturas e dos territórios de diferentes povos.
O site amplia essa conexão. Por meio dele, a arte dos povos Mẽbêngôkre, Trumai, Yudja e Tapayuna atravessarão as fronteiras dos territórios sem se separar de sua origem.
A plataforma convida o público a conhecer as peças, suas histórias e seus produtores e a integrar uma rede de apoio construída em torno do respeito, da valorização cultural e da força criativa dos povos da floresta.
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