ATL 2026 reúne delegação histórica do Instituto Raoni e cobra demarcação da TI Kapot Nhinore

A delegação do Instituto Raoni participou da 22ª edição do Acampamento Terra Livre, realizada em abril de 2026, em Brasília, levando ao centro político do país demandas construídas nos territórios indígenas do norte de Mato Grosso e do sul do Pará. Representantes dos povos Mẽbêngôkre, Trumai, Tapayuna, Yudjá e Panará do Instituto Raoni integraram as marchas, reuniões institucionais, debates e articulações políticas da maior mobilização indígena do Brasil.

Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil — APIB, o Acampamento Terra Livre reuniu mais de 7 mil indígenas de aproximadamente 200 povos, procedentes de todas as regiões e biomas do país. Sob o lema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, o encontro reafirmou a demarcação e a proteção das Terras Indígenas como fundamentos dos direitos constitucionais, da soberania nacional e das respostas à crise climática.

A participação do Instituto Raoni combinou presença nas mobilizações coletivas com uma agenda própria de incidência. Entre as prioridades apresentadas estavam a demarcação da Terra Indígena Kapôt Nhinore, a proteção das Terras Indígenas Capoto/Jarina, Mekragnoti e Xingu, o fortalecimento das organizações indígenas e o enfrentamento a projetos legislativos e econômicos que ameaçam os territórios.

Diversidade dos povos e continuidade da luta

A delegação reuniu lideranças históricas, mulheres, jovens, guerreiros, representantes comunitários e integrantes das estruturas de governança do Instituto Raoni. Nas ruas de Brasília, os diferentes povos marcharam com pinturas de jenipapo e urucum, adornos, cantos e formas próprias de manifestação política.

A presença de diferentes gerações teve destaque ao longo da mobilização. Beptuk Metuktire, integrante da coordenação do Instituto Raoni e neto do Cacique Raoni, representou uma geração que vem assumindo responsabilidades na gestão das organizações indígenas, na articulação institucional, na diplomacia, na comunicação e na defesa dos territórios.

Sua participação expressa a continuidade de uma trajetória política construída pelas gerações anteriores e atualizada diante de novos desafios. A proteção territorial exige atualmente o domínio de processos administrativos, ferramentas de monitoramento, estratégias de comunicação e interlocução com órgãos públicos e organizações internacionais, sem perder a vinculação com as decisões tomadas nas aldeias.

A delegação também contou com a presença do Cacique Megaron Txucarramãe, uma das principais referências políticas do povo Mẽbêngôkre. Durante o ATL, Megaron relacionou a defesa dos territórios à necessidade de ampliar a representação indígena nos espaços institucionais e eleitorais.

Em sua mensagem aos povos indígenas, o cacique defendeu o apoio a candidaturas efetivamente comprometidas com os direitos originários. Muitas das decisões que afetam as demarcações, o licenciamento ambiental, a mineração e a proteção das florestas são tomadas no Congresso Nacional. Para Megaron, aumentar a presença indígena nesses espaços constitui uma estratégia política necessária para enfrentar projetos que procuram reduzir direitos garantidos pela Constituição.

Foto: Mario Vilela – FUNAI

Kapôt Nhinore no centro da agenda

A demarcação da Terra Indígena Kapôt Nhinore ocupou posição central na agenda do Instituto Raoni durante o ATL.

Localizado entre Mato Grosso e Pará, o território possui aproximadamente 362 mil hectares e está profundamente associado à história dos povos Mẽbêngôkre e Yudjá. Kapôt Nhinore é o local que abriga lugares de memória, antigas aldeias, caminhos, rios, áreas de uso tradicional e sepultamentos dos antepassados do Cacique Raoni.

A reivindicação ultrapassa a regularização administrativa de uma área. Para os povos que mantêm vínculos com Kapôt Nhinore, a demarcação significa garantir a continuidade das relações sociais, territoriais e históricas construídas ao longo de gerações.

Na tarde de 7 de abril, o Cacique Raoni e integrantes da delegação participaram de uma reunião na Fundação Nacional dos Povos Indígenas, com a presença da presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré. Foram apresentadas demandas das comunidades da Terra Indígena Capoto/Jarina, da região sul da Terra Indígena Mekragnoti e da região norte da Terra Indígena Xingu.

Durante o encontro, a Funai informou que havia concluído as respostas às contestações apresentadas contra a demarcação de Kapôt Nhinore. A conclusão dessa etapa liberou o processo administrativo para avaliação do Ministério dos Povos Indígenas e posterior encaminhamento ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, responsável pela possível publicação da portaria declaratória.

O avanço foi recebido como resultado de uma mobilização mantida durante décadas pelas lideranças e comunidades. A resposta às contestações, entretanto, não encerra o procedimento. A demarcação ainda depende de decisões administrativas posteriores, da emissão de portaria declaratória pelo Ministério da Justiça, da demarcação física, da homologação pela Presidência da República e do registro definitivo do território.

A delegação utilizou sua presença no ATL para cobrar rapidez e responsabilidade do Estado em cada uma dessas etapas. A permanência prolongada de processos sem conclusão mantém os territórios expostos a ocupações, conflitos fundiários, desmatamento e outras pressões.

Foto: Mario Vilela – FUNAI

Marchas contra os retrocessos

A delegação do Instituto Raoni participou das grandes marchas realizadas na Esplanada dos Ministérios. Uma delas denunciou a atuação do Congresso Nacional na promoção de propostas contrárias aos direitos indígenas. Outra cobrou do Poder Executivo medidas concretas para a continuidade das demarcações.

Segundo levantamento apresentado durante o ATL, 76 Terras Indígenas aguardavam homologação presidencial e outras 34 dependiam da emissão de portarias declaratórias pelo Ministério da Justiça. Para o movimento indígena, a demora nessas etapas amplia a insegurança e contribui para a continuidade das invasões e dos conflitos territoriais.

Sob o lema “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda”, a marcha denunciou propostas que procuram restringir demarcações, flexibilizar o licenciamento ambiental e autorizar a exploração econômica dos territórios sem o consentimento dos povos afetados.

A delegação do Instituto Raoni marchou para reafirmar que os territórios não podem ser tratados como reservas de madeira, minerais, terras agrícolas ou ativos financeiros. Neles se encontram as condições necessárias à reprodução física e cultural dos povos, incluindo suas línguas, seus sistemas alimentares, seus conhecimentos, suas formas de organização e seus lugares de memória.

Foto: Kokomeket (Prai) Kayapó

Incidência junto aos Três Poderes

O ATL 2026 produziu cartas dirigidas aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, nas quais o movimento indígena apresentou avaliações e reivindicações específicas.

Ao Executivo, a APIB reconheceu avanços institucionais, como a criação do Ministério dos Povos Indígenas, a presença de lideranças indígenas na Funai e na Secretaria Especial de Saúde Indígena e a retomada de alguns processos demarcatórios. O documento também registrou que essas medidas ainda não respondem à urgência dos territórios.

O movimento cobrou a transformação da política indígena em política permanente de Estado, com orçamento, estrutura institucional, presença territorial e participação efetiva das organizações indígenas. Entre os compromissos apresentados estão a demarcação e a desintrusão das terras, o respeito à consulta livre, prévia e informada, o fortalecimento da saúde e da educação escolar indígena e a criação de políticas de proteção para lideranças e comunidades ameaçadas.

Ao Congresso Nacional, os povos denunciaram propostas de emenda constitucional e projetos legislativos destinados a limitar direitos territoriais, facilitar atividades econômicas nas Terras Indígenas e enfraquecer a aplicação da Constituição de 1988.

Ao Judiciário, o ATL solicitou a reafirmação da inconstitucionalidade do marco temporal e criticou interpretações que transferem aos povos indígenas as consequências da demora do próprio Estado em concluir as demarcações.

Essas posições estiveram diretamente relacionadas à agenda do Instituto Raoni. O processo de Kapôt Nhinore demonstra como contestações, disputas judiciais e mudanças nas interpretações legais podem prolongar durante décadas o reconhecimento de uma ocupação tradicional.

Participação indígena na política

A dimensão eleitoral também ganhou espaço na edição de 2026. A APIB apresentou uma nova etapa da Campanha Indígena, estratégia construída para ampliar a presença dos povos nos espaços institucionais.

A iniciativa recupera uma trajetória que inclui a eleição de lideranças indígenas para câmaras municipais, assembleias legislativas e o Congresso Nacional. O movimento defende que a participação eleitoral esteja articulada às organizações de base e às pautas coletivamente definidas pelos povos.

A mensagem do Cacique Megaron durante a mobilização esteve inserida nesse debate. Ao convocar os parentes a fortalecer candidaturas indígenas, ele ressaltou que a marcha nas ruas e a atuação institucional fazem parte de uma mesma estratégia.

A ampliação da representação política não significa apenas ocupar cargos. Envolve garantir que pessoas vinculadas às comunidades participem da formulação de leis, da destinação de recursos e da fiscalização das políticas públicas que afetam diretamente os territórios.

A participação de Beptuk Metuktire também se relacionou a essa construção de longo prazo. Como representante da nova geração, ele integrou uma delegação que não esteve em Brasília somente para acompanhar a programação do ATL, mas para participar das negociações e compreender os caminhos administrativos e políticos que determinam o futuro dos territórios.

Solidariedade à luta contra a Belo Sun

A agenda do Instituto Raoni também incluiu apoio às mulheres do povo Xikrin e à mobilização contra o projeto de mineração da empresa Belo Sun, previsto para a região da Volta Grande do Xingu.

Em mensagem apresentada durante o ATL, o Cacique Raoni manifestou solidariedade a Ngrenhararati Xikrin e às mulheres que atuam na defesa do território. O empreendimento pretende instalar uma grande operação de mineração de ouro a céu aberto em uma região já afetada pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

A posição defendida pelas lideranças é que nenhum projeto pode avançar sem consulta livre, prévia e informada às comunidades atingidas. A exigência está prevista na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho e deve ser aplicada antes da tomada de decisões administrativas capazes de afetar os povos e seus territórios.

O apoio às mulheres Xikrin reafirmou a importância das alianças entre povos diante de empreendimentos cujos impactos ultrapassam limites territoriais e administrativos. A proteção do Xingu envolve rios, comunidades e ecossistemas conectados, atingidos de maneira acumulativa por diferentes obras e atividades econômicas.

Foto: Kokomeket (Prai) Kayapó

Territórios no centro da política climática

Outro tema debatido no ATL foi a relação entre direitos territoriais e crise climática. Durante a mobilização, organizações indígenas apresentaram uma proposta global para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis.

O documento defende o fim da abertura de novos campos de petróleo, gás e carvão, a criação de zonas livres de exploração e o reconhecimento das Terras Indígenas como áreas prioritárias para a proteção climática e da biodiversidade.

A proposta sustenta que a transição energética não pode reproduzir a exploração mineral e territorial que historicamente afetou os povos indígenas. Tecnologias classificadas como verdes também dependem de minérios, infraestrutura e grandes áreas, podendo criar novas pressões quando implantadas sem consulta e sem salvaguardas.

Essa discussão encontra correspondência direta nos territórios representados pelo Instituto Raoni. As comunidades convivem com pressões associadas ao garimpo, ao desmatamento, aos incêndios, à expansão agropecuária e à implantação de grandes empreendimentos. Por essa razão, a defesa climática precisa incluir demarcação, vigilância, manejo territorial e financiamento direto às organizações indígenas.

Foto: Kokomeket (Prai) Kayapó

Um ATL marcado pela cobrança por resultados

No último dia da mobilização, representantes do governo federal participaram de uma agenda de anúncios e prestação de contas. A Funai informou a delimitação de territórios, a criação de uma reserva indígena e a formação de grupos técnicos para novos estudos.

Também anunciou oficialmente a conclusão das respostas às contestações de Kapôt Nhinore, permitindo o avanço do processo para as etapas seguintes.

Os anúncios foram considerados insuficientes por diferentes delegações. Lideranças de regiões marcadas por conflitos territoriais deixaram Brasília sem a publicação das portarias e homologações esperadas.

A avaliação geral combinou o reconhecimento da capacidade de incidência do movimento indígena com a cobrança por decisões administrativas concretas. O ATL reafirmou que a abertura de canais de diálogo precisa resultar em demarcações, orçamento, fiscalização e proteção permanente.

A agenda continua nos territórios

A participação do Instituto Raoni no ATL 2026 demonstrou que as mobilizações nacionais se alimentam das demandas formuladas nas comunidades. A defesa de Kapôt Nhinore, a proteção das Terras Indígenas já demarcadas, o apoio aos Xikrin e a ampliação da representação política indígena compõem uma mesma agenda de autonomia territorial.

Ao final do encontro, a carta política do ATL reafirmou que “defender os territórios é sustentar o mundo” e que a demarcação constitui parte indispensável de qualquer resposta séria à crise climática.

A delegação retornou aos territórios levando informações sobre o andamento dos processos, os compromissos assumidos pelas autoridades e os próximos passos da mobilização. A conclusão do ATL não encerrou essas agendas. A pressão sobre os órgãos públicos, o acompanhamento da demarcação de Kapôt Nhinore e a articulação entre os povos continuam.

Para o Instituto Raoni, estar no ATL significa ocupar os espaços de decisão com as vozes das comunidades e reafirmar que os povos indígenas possuem propostas próprias para seus territórios e para o país. A marcha, as reuniões institucionais e a formação das novas gerações integram um trabalho político contínuo, construído nas aldeias e levado aos centros de poder.

Kapôt Nhinore permanece no centro dessa mobilização. Sua demarcação é um dever constitucional do Estado brasileiro e uma condição para assegurar a continuidade territorial, cultural e política dos povos Mẽbêngôkre e Yudjá.

Fotos: Kokomeket (Prai) Kayapó e Mario Vilela – FUNAI